Eu estava a contemplar, estava frio, ambientador, tinha partido, tipo vidros subconscientes. O chão era áspero e eu estava agasalhada.
0s os meus bolsos cheios de porcaria, molhado, passos molhados e respingos em cima de mim. Estava tudo azul, roxo, estava de noite, muito escuro a ponto de só ouvir a água a escorrer na estrada vazia e a luz dos postes a refletir nas janelas próximas. Vinha culpa em todas as direções, apertou-me o peito, deixou-me em baixo e foi nessa mesma direção que fui. Era cruel e doce em simultâneo, a minha boca tinha sabor a frutas tropicais salgadas, saturadas, doce repetitivo, acido confundido proposto. O tecido da minha luva preta ficou presa num dos espinhos do alcatrão do chão feito por um fio muito fino, o meu peito pesado carregava emoções maiores que eu, tipo responsabilidades num fim de semana livre, mas pior que ter insónias antes de um dia de trabalho. Eu forçada a saber a verdade desde criança, isso corria-me por de dentro para fora, transtorno. Não posso deixar as coisas de fora afetar o “meu texto”, preconceito dor. Noites não dormidas, a desejar, a olhar para a janela semiaberta por buracos minúsculos das persianas, era intenso, mais que uma questão intima. Só eu saberia que ela não gostava de mim de volta, não a perguntar, não perguntei, mas vi-a e sabia que ela me tinha visto de volta, irei pergunta-la se ela sente o mesmo pelas palavras que tinha carregado antes por meses: “o que sentes por mim, sem pressão”. Estou desiludida, iludida eu, eu perguntei um bilhete de fora de casa dela (domingo) e não desisti, Vou perguntar a esta quarta um almoço de sushi, pouco porque ela é frágil, dá charme. Vontade de receber atenção é real, mas o que mais me choca é que uma parte forte de mim querer mostrar esta história a todos, não posso, muito íntimo, mas “pode-me levar a lugares”, eu quero estar no meu cantinho. Eu continuava lá especada no chão, abraços abertos bem fechados, filtros, eu culpava-me nos outros e os outros reagiam com um sorriso, cruel ter de aceitar que não vou entender a lógica humana, mas tem coisas que temos de aceitar bem calados. Eu ouvi o gritar de uma varanda, varas de metal coloridos, enferrujados, erosão manchada de castanho, isso sujava as mãos dela, porém ela não estava lá para mim, a chuva também manifestava-se nos telhados, fechados, não deitavam na pobre entrada nem mesmo conseguiam sentir o fogo da fogueira do interior, felizmente. Marca as palavras com tinta preta, desejo. Entretanto, estava no meu quarto escuro, não se ouvia nada, mas a música “eurolal”, calma que me mantida estável e que me achava genérica, eu esperançosa ouriçava para reaver o sentimento que antes sentia com frescura de lençóis limpos, mas ontem usava os meus olhos para esperar uma estrela-cadente, estava deitada de barriga para baixo, em baixo do cobertor a cobrir a minha cama, mãos cruzadas dadas prestes a chorar, mas só desejava desejar como hoje.Continuava a ouvir gritos na rua a minha frente, uma voz familiar da pessoa na varanda, abafada pelas paredes, bordas amarelas marcaram as minhas retinas enquanto suspirava, ainda com as luvas rebentadas, filtro, estava a formar ansiedade, o meu rabo dorido da mesma forma em baixo dele estava a doer, frio, não aguentava ficar parada nem mais um segundo.
Uma vontade inquietante para mexer-me, mas queria que isso acontecesse noutro sítio, noutro tempo, noutra altura, de outra maneira, escrevendo olhares para ser esquecido e ilegível. Eu lembro-me quando-a conheci, ela era distante, tinha um corredor de metal e uma porta de vidro a separar o calor confortável e abafado do outro lado, do lado dela, estava desfocado de emoções de “desconhecido”, mas eram confortáveis como o seu sorriso ao pintar o seu pequeno desenho no quadro interativo, tentar definir o que aconteceu era imperdoável, mas agora não é, estou limpa. O interior era composto por altos sons, altos sentimentos e alto caos separado e divididos, coloquei as minhas raízes (a música) no sítio certo e esperei pelo melhor enquanto estava num canto, eu via as emoções a mover-se enquanto ela dançava uma música familiarmente impactante, ela deu-me sinais que gostava e deixou bem claro, fiquei a ver essa música de um jeito diferente para sempre, mesmo que não lembre do nome dessa tal música. Estava tudo orquestrado e parecia um bêbado antes, enquanto isso ela estava na sua área, na sua bolha e não quis perturbar, eu era muito nerd e ela muito.. Outro nível, nem pensar, não conseguia traduzir os meus sentimentos e falas em algo que ela intendesse. Eu quis abraçar-la com os meus olhos como faço sem ela reparar no que desejo, deserto. Cá vou eu, fui lá a frente, com o cabelo envergonhado e fiquei a admirar de perto a sua criação mais recente (depois da sua dança). O meu coração EXPLODIU, EVOLUIU, CAIU, PARTIU tudo em simultâneo, quando ela se conectou a mim, com os olhos e depois com a mente, Eu queria só cair para o chão e chorar, mas ela deu-me a sua palavra:-”Olá, queres desenhar também?”Eu não respondi, pois, estava a restabelecer conexão com o meu corpo, mas não consegui a tempo, ela deu-me uma caneta para a mão: odeio o amor, odeio o romance, ODEIO! (isto é o meu cérebro quando não processo bem o rápido o suficiente), ODEIO O AMOR, SOFRIMENTO DO ROMANCE, ODEIO! Mas mesmo assim eu desenhei algo e.. Senti-me mais cheio do que o objetivo sem público simulado. Só a quero abraçar e abraçar todos os dias. Mas eu tinha caído, mais fundo do que conseguia levantar, tropecei, mas estava sozinha. Quero estar naquela cama novamente, o mais cedo possível, da melhor forma possível, mas nesta história estou longe de casa e pronta para desmaiar no chão de concreto e giz, mas estou em dor, censura. Estou desconfortável em admitir que tenho uma segunda casa, uma que vou, ou eu espero estar por mais de 2 anos, porque nessa casa sinto-me bem-vinda, na real, sinto-me sozinha.
Não posso convencer mais a ir atrás dela quando ela não me faz o mesmo, aquelas noites não dormidas começam a abusar de mim, falta de pena, desnecessário partilhar singularmente a minha figura (invés) de plural-mente. Mesmo se não concordam do mistério de ela não me amar de volta, irei ficar de braços cruzados até aquela tão esperada estrema cadente de todas as noites aparecerem novamente! Eu conheço-me, não sou pessoa de abusar do “apostrofe”, sou mais uma pessoa... de reticências, posso motivar a dizer a minha palavra, “abraçar com os olhos”, mas não me conseguirei separar para agarrar.
Saudades é um conceito que uso para coisas que importam para mim ou para a saúde e bem-estar dos outros. O meu cérebro a contar-me histórias é divertido, mas quando estou em público é considerado “esquizofrenia”, mas quando estou sozinha é uma droga. Uma que pode ajudar mentes sonhadoras, mas destruir mentes fracas. É mais que uma memória, agora entendo o motivo de ter caído... A culpa a atacar-me de todos os lados, os sentimentos a apertar-me para uma queda brusca no chão, eu não me consigo levantar, aquela voz familiar está cada vez mais alta e sinto que além das paredes de concreto, aquela mulher da varanda está realmente empenhada em dar uma mensagem, a transmitir informação na esperança que alguém a receba e cá estou eu recebe-a-la. Neste patamar o que ela está a gritar é irrelevante, está muito frio, mesmo com roupas super grossas, tudo lá em baixo está dormente.— “Devia levantar-me.. Mas não consigo”Murmurei com os lábios quase pedra.
— ” Porquê caíste em primeiro lugar?”Disse a sombra, se bem que se parece com uma personalidade inventada.
— ” Eu quis, eu podia.”Respondi com brutidade, não quis causar boa impressão porque desconhecia a figura e julgando pelo formato também tinha ar de ser alguém mal-intencionado.
— ” Ás vezes precisamos.. Precisamos deste ar fresco, deste ambiente, cair propositalmente parece-me apropriado”A voz respondeu monotonamente, sem emoções, não conseguia ler nada.
— ” Yah Yah, blah blah, julgas que estou triste?”Tentei responder com a mesma temperatura da última frase.
— ” Sim, realmente julguei estares num mau momento, estavas a olhar tão profundamente para cima, vim aqui porque me preocupo facilmente com coisas.”Essa voz estava.. a tentar praticar algo em mim, semear um sentimento talvez, mas com o tempo a postura da figura estava cada vez mais aberta.
— ” Porquê preocupar com o que não te faz falta? Não devia-”Eu respondi, cansada com preocupações, mas fui rudemente interrompida.
— ” Eu sou assim, o que não me faz falta é fora do meu patamar, mas saber que uma pessoa tem algo que eu nunca tive ou nunca vou ter não devia ser revoltante”Era “uma” voz, parecia de uma adolescente, estava meio rouca por isso que estava monutona, parecia genuinamente preocupada depois desta falha de voz, é doce, é confortável, parece a voz de uma daquelas amigas da escola que vês durante 2 semanas e vão se embora para outro país.
— ” O que nunca vais ter? O que eu tenho que tu não tens?”Respondi preocupada, tom mais calmo e aberto.
— ”Tens lógica, este mundo não faz sentido, tu estudaste tudo, sabes o que estas a fazer, como responder, como agir. Saudades de quanto tudo fazia sentido”
Ela respondeu com um tom muito frágil e sensível, ela estava perdida, eu não sentia nada por ela, nem pena, estava muito frio, estava muito vazio para encher com emoções, mas limitei-me a responder.
-” Como posso ajudar-te?”Isso provava a minha natureza simplicista, uma pergunta direta, mas momentos após ela suspirar por causa da minha resposta ela caiu para o chão, o seu vestido de verão preto e leggins agora visíveis, estavam manchados com algo, ela molhou essas roupas com a queda, obviamente ela estava frágil, vulnerável, eu vi tristeza mesmo sem conseguir ver nada da sua expressão facial. Ela ajoelhou-se a minha frente e começou a chorar violentamente.
-”A.. Ahn.. Ahnn-há muito tempo que ninguém me oferecia aju-ajud-da”As pausas dramáticas e repetitivas do choro ficaram bem claras, eu fiquei sem saber como ajudar, não estava preparada minimamente para um evento destes. Eu puxei-a para os meus braços, deitando a sua cabeça no meu colo, então era isso? Eu estava paralisada mentalmente e fisicamente sem saber o que fazer, presa.. só sabia acariciar o cabelo dela.. era liso e curto.. Parecia ter uma franja escadeada. Nesse momento a voz distante voltou.. Invés de gritar por algo, cantou, cantou uma música, as letras estavam mufadas e desfocadas, mas o ritmo e o tom de voz não.. Ecoava pela rua apertada, eu senti paz de espírito, a cabeça chocante que tinha no meio das minhas pernas cruzadas já não era relevante, mas preocupante. Olhei para a estrada, a tinta quase desaparecida, os passeios com pedras cúbicas, a textura do alcatrão que guiava a água da chuva e refletia luzes dos postes, as persianas todas fechadas até ao limite, os apartamentos todos pertinho um dos outros, a água da chuva caia do telhado por um cano até debaixo do chão graciosamente. Mas já tinha estado duas horas e meia naquele ambiente, estava desgastada, mas não sentia nada. Toquei levemente nos ombros dela para a acordar daquele choro suave, ela olhou para mim e levantou-se com vergonha, totalmente em silêncio ela ajudou-me a levantar, os meus membros inferiores completamente doloridos, mas levei-a em direção ao sítio chamar de casa. Ainda em silêncio coloquei as chaves na porta do apartamento, era pequeno, não era um luxo, mas tinha muito conforto, tecidos peludos, fogueira ainda ligada e um gato a repousar nas mantas, apontei para a casa de banho, ela foi lá e eu fui para o quarto. Vamos ser realistas, esse pequeno pedaço de tempo é arte viva, sem explicação, sem nenhuma comunicação de todo, nós tinhamos conectado e sabiamos o que precisávamos, como e quando. Entretanto... a estrela-cadente ainda não tinha aparecido, a voz da vizinha distante ainda vivia na minha cabeça, adormeci assim que aterrei na cama, ela foi roubar o meu pijama que estava no estendal e dormiu ao lado do gato. Ainda prezo para saber quem ela é e o que ela vai-me dizer, irei deixa-la em paz porque apesar de 1 divisão física de distância, ainda sinto o coração dela a bater.
— Fim —