Deparei-me seguido num hotel, deitada numa cama, no topo da cidade que brilhava a noite, só ouvia sons muito delicados de carros numa autoestrada a ecoar pelo espaço grande do quarto, desligava as luzes — não precisava delas, só tinha uma casa de banho bem tratada ali, uma cama bem no outro lado da parede (macia), uma varanda na próxima parede do lado direito da cama, essa varanda revestida por azulejos sem marca e painéis de vidro como apoio, uma fumadinha cabia bem ali, não sou fumadora.
O televisor piscava e manifestava em standby, os vizinhos assistiam a um filme no outro quarto, abafado, mas percebia ser ação pelo barulho alto e detalhado de paredes a serem derrubadas com gritos.
O que fazia ali? Estava a escapar, a escapar de algo que só eu conhecia, um sentimento de chegar a casa e não estar lá ninguém para mim, apenas para cada uma. Acendia velas nos bolos com cobertura de morango ocasionalmente só para mim, comprava joias só para mim, assistia filmes só para mim, festejava e dançava sozinha — só para mim. Eu era a minha própria pessoa, não suportava relacionamentos, não suportava pessoas que só conheciam o meu velho-eu e julgavam o novo-eu como se tivesse substituído uma joia por outra idêntica e falsa, aqueles olhares não me cabiam bem.
Eu era a minha própria namorada, isso fazia-me lembrar das promessas (das poucas) que fiz para mim mesma, fui a pessoa que me comprometi mais, fiz mais carinho, sorri e chorei mais. Pessoa de poucas promessas a cumprir a sua palavra.
Tinha 16 anos e pensava numa coisa: quero relacionamento, quero comprometer-me a alguém, quero amar, abraçar e ter além para estar lá para me apoiar, mimar, estimar e respeitar. No fundo, estava cheia de nada, não tinha nada para dar a essa pessoa, passei tanto tempo a inventar algo, algo que me junta-me com esse alguém, até fiz uma carta, comecei a fazer a minha própria reza (sem religião), a preparar-me mentalmente.
Mas, no fundo — Era só eu e a minha pessoa, eu era quem me conhecia, eu era quem me apoiava mais, eu era quem mais me amava e continuo a ser — sempre serei! Então o que sempre disse de “Não sou compatível com relações” é verdade, nunca namorei por mais de 1 ano, nunca-me aguentei com os mesmos sapatos numa relação porque eu mudo muito rápido, mudo muito lento, ninguém está preparado para o meu ritmo, ninguém consegue partilhar a mesma mesa que eu ou andar nas mesmas montanhas russas que eu.
No fundo, só eu e eu. Agora sim, dá-me vontade de fumar naquela varanda que falei no início, mas para permanecer mais anos neste planeta (não garantidamente), evitei. Limitei-me a ir apenas fui a loja de conveniência mais próxima, partilhei sorrisos com o trabalhador jovem, voltei para o hotel, guiei-me até ao meu apartamento pelo som de drama/ação a ocorrer no compartimento dos meus vizinhos e entrei para beber o meu iced-tea de pêssego.
Olhar para a cidade a noite, um prédio de cada vez, respirar fundo e finalmente convencer-me a dormir, passar outro dia, sem pressa.
— Fim —