Afogamentos, eu senti-me afogado em memórias que nunca tinha vivido, eu era o Tomás. Tinha.. Tinha cabelos alaranjados, com um corte simples, era criança, talvez nos meus 14 anos. Eu.. Eu tinha 14 anos? Passei-me, apenas internamente. Eu lembro de sentir um vento parecido com o da praia num inverno, mas era outono. Os meus irmãos mais novos, ali, todos inocentados a correr no jardim, a pisar a relva tratada, brincar a apanhada ali perto de mim, estava sentado no balouço com toda a culpa do mundo, não sei mais nada.
Estava paralisado. Mortificado, carniceirado apanhado em fuga. Mas na realidade nem mexia um músculo dentro do meu controlo, a minha mãe estava a sair do armazém do jardim a correr em direção aos grelhadores, segurando o seu vestido verde longo para não sujar a relva, pegou na carne com um palito de aço e virou-o para não tostar, o cheiro que vinha dali era sufocante, carvão misturado com perfume de amora, não existia pior combinação, pessimista nê? Eu analisava-só, não olhava, eu não encarava, apreciava. A sentir o nada quando o nada é impossível de sentir, qualquer criança daria algo que a definisse para estar no meu lugar, família saudável, pertences saudáveis, os meus peluches ainda eram amados. Só conseguia pensar uma vez de cada vez e eram grandes filósofos, reguilas carinhosos, mas gastavam a energia que podia abastecer uma partida para fora deste país. Estava encurralado nas leis, dentro do meu poder enquanto menor de idade. Não tem segundo significado, não era autor nem nunca fui, mas tinha direito a escrever uma história por vida, uma que era suposto orgulhar-me, mas sentia ir chegar ao capítulo 25 de grandes 19 temporadas. O sistema de episódios começou a ficar obviamente obcecado. Nessa noite não comi, retoquei o bifinho cordado com carinho e ainda fiz dunas de puré. Um churrasquinho lá fora, de noite, em família com luzes de exterior a cobrir a nossa área de cultura e conversas agradáveis sobre romances que conseguiria dar a mão, mas nunca agarrar nem sentir. Não tinha textura, apenas ha.. ha.. ha, senti-a me culpado por não participar, caia sem como se não tivesse chão, mas o tapete estava a cobrir-me da próxima queda: o inferno. Queria viver até ser “independente”, sair daquela casa porque não sentia nada por ninguém, sair dali por ser o lugar que mais chorei, mas também o que mais sorri, o que mais vivi, mas o que mais tinha chance de morrer. Enfim, hoje acordei com o corta-relvas do visinho, ele parecia desabafar o seu hálito na atmosfera, a cobrir tecidos com os seus líquidos, não fazia muito, mas não fazia pouco, estava velhinho, pobre coitado, tinha escola amanhã, não como aquele tipo, tinha uma bela vida até aos 27, tinha trocado meia dúzia de sorrisos quando tinha 7 anos e nunca mais-o vi da mesma forma, só porque ele evitava contacto com o exterior. Na semana passada tinha 7 carros a sua porta, ele foi levado para algum lado e na noite seguinte tinha voltado a pé de algum sítio com roupas rasgadas e sangue no olho. Teorias: nenhuma, talvez tenha sido a sua mulher que fingia gostar dele por dinheiro, ou uma das que pretendiam herdar uma mentira. Ele nunca tinha nada a oferecer, tinha um sorriso fraco, mas que tinha altas intenções carinhosas.Eu também lembro-me passear a minha infelicidade para a escola todos os dias, sem romance, apenas delicadezas platónicas, eu adorava a funcionária, ela era a minha melhor amiga. Mesmo que ignorar-se, revirava os olhos, suspirava, forçava a voz e gritasse, sentia boas intenções por trás daquela hostilidade de um nível de uma porta de aço. Ela não me batia, era proibido, mas eu reportava-me por ela não ter feito o que teria de ser feito, pode parecer rude, mas ela era pior. Imaginem o vosso Tiago roubar um pacote de leite com chocolate, insultar-vos, suspender-vos e se fizessem algo para lutar de volta e ripostar instantaneamente seriam os culpados e eles vitimam-na. Que ardam nos confins do inferno, impressionar uma pessoa com boas intenções com uma que só quer o bem. Não podes ter o bem neste mundo, ou vai a mal ou vai à morte. Pessimista, não, realista desde os 4 anos.
Por falar em idade, eu comecei a conduzir com 15 anos, um ano após estar farto, caí longe no pedal, isso porque o meu amigo Michael atuava deficiente fisicamente na escola, mas, na verdade, era um puto ninja da máfia, apenas pretendia para faltar a aulas, descansar o seu pé e chorar para sair dessa vida quando ninguém estava a olhar. Eu não sentia empatia, ele entendia o meu lado, sociopata infantil. Eu tinha faltado a aula das 3 e 33 para fazer difterias no estacionamento de um shopping abandonado, 1km e meio de distância. Boas memorias, defini-as mim mesmo, estou orgulhoso. Vamos pular uns anos: 21 anos, estou a trabalhar no trabalho dos meus pais adotivos, adotivos porque eu quis sair de casa mesmo sem condição, procurava transparência, o perfeito não é para mim, agora entendem? Bem.. Continuando com a minha historinha: Eu trabalhava como garçon de mesa, de mesa, a mesa, esparguete aquilo, um café morno e um croissant aquilo, um bife com arroz branco aquilo, estava cansado, prestes a desmaiar, imaginem um gajo de barba feita, cara com manchas vermelhas, suado, com cabelo levemente inclinado para cima, fatinho de garçon com uma mancha de mostarda na manga.. E agora a câmera está lá em baixo na minha barriga, levemente para trás a mirar-me na cara num ângulo baixo, cada curva e movimento é registado por ângulos de rotação esquerda e direita. ERA um caos, mal conseguia regular o sangue da cabeça para as pernas e das pernas para a cabeça novamente, não precisava mais da cabeça de qualquer maneira. Eu tinha aceitado aquilo, 8 horas por dia + 2 horas extra, um ordenado mínimo + 80 paus, vocabulário inapropriado, desculpem as desformalidades, mas estou cansado do meu turno de dia inteiro, era mal tratado, poucas gorjetas, mas sorria sempre e dizia “venha sempre”, “obrigado”, “em que posso ser-lhe útil?” e aquilo não era para mim. Mesmo naquelas condições era mais favorável do que o perfeito, sentia cansaço, mas emocionalmente indisponível, era um baú trancado cheio de nada. Os meus pais adotivos não paravam de comentar a minha vida, a minha frente e de elogiar-me a frente dos seus sócios e amigos que falavam por obrigação, por dinheiro, era mais transparente mesmo assim. Não tinha 25 anos, 25 anos para gastar-me daquela maneira, apareci em casa da minha avó e disse estar farta, a minha avó morta, era a sepultura dela, falava o quando tinha saudades de ser criança, criança que só andava de baloiço todos os dias por 17 anos, ela cumprimentou-me e sinalizou querer espaço, mas havia imenso, era uma parede de madeira e terra, ela queria algo mais. Ela não me entendeu, fiquei frustrado por ela não me responder apropriadamente, eu acusei-a de ter estragado a minha infância, por impulso apenas, era tudo familiar, já tinha acontecido mais vezes. Ela ralhou comigo e disse que não faria lasanha no próximo sábado.Eu intensifiquei as emoções, intensifiquei e escalei a conversa desprotegido, antes de ela responder eu chutei a lápide dela, gritei “NUNCA ESTIVESTE LÁ PARA MIM” como se ela estivesse antes de eu ter nascido, incomodei os mortos, desculpem-me, eles não se encontram mais em paz.
Ela arruinou-me a vida, criando uma geração que sevia de ponta solta para apostar. Eu senti-a me um prémio por caçar, eu senti-a me imortal, mas uma policia, a Beliniana (ví pela a etiqueta no colete), tinha me visto a ouvir os meus gritos, ela com todo o respeito tocou-me no ômbro e pediu para eu sair, estava a fazer os mortos sofrer.-”OBRIGA-ME!”Eu gritei para ela.
-”OLHA LÁ, Vê lá se tens mais respeito! Eu não te fiz nada, não posso ser o seu saco de pancadas nem a tua almofada para suspirares gritos.”Ela disse, nervosa, estava a fazer o seu trabalho, não lhe faltava paciência, a calma dela vez-me realizar perceber a situação, estava ridiculo, espetado de sentimentos prestes a transbordar.
-”Pá.. desculpa, tive um mau bocado, desculpa mesmo muito”.Eu disse, como se tivesse uma cauda entre as pernas, arrependia-me e senti-a me como se estivesse no fundo de uma piscina de 2 metros com muito cloro com o peito cheio de ar.
-”Pá? Olha, não tens pedir desculpa por aquilo que não tens culpa.”Gostei dela, ganhei respeito, ambos sabemos que a culpa era minha, mas não queria deixar isso explicito já que ela questionava o oposto por trás desta declaração. Eu continuava com os braços dormentes de agarrar pratos, e as pernas suadas de esfregar a minha pele enquanto corria pelo estabelecimento que tinha estado anteriormente. Eu só acenei, olhei uma ultima vez para a lápide caida e rachada da minha querida avó, só queria ter chutado-a 2 vezes, mas não, era muita pressão. Perdi bons dias a pensar no acontecido, na minha segunda habitação (dos meus pais adotivos) que tinha o ambiente familiarmente sofucante, a transparência pouco a pouco ia ficando mais fusca, não conseguia ver nada mas luz, queria ver, encarar e notar texturas no outro lado, mas era só luz que me cegava. TENHO DE SAIR DAQUI! Sem dizer adeus, só peguei em roupa interior, almofada, dinheiro, posters de minha banda de rock favorita e claro, os meus peluches. Saí de casa exatamente á meia noite e meia. Corri até a paragem de autocarro que estava obstruida por obras que não acabaram cedo o suficiente, passou 8 anos e meio desde a ultima vez que vi alguem a interagir com aquilo. Felizmente ele passava lá por causa de colégios e faculdades que obriava estudantes a ter um futuro, ou a tentar, num turno da noite. Estou apressado, estou mal, a vida não espera. Quando o autocarro parou na minha cara, causando um vento 2 vezes mais forte do que o vento que já estava presente, eu só andei para outro sentido, não tinha paciencia para esperar.. esperar por algo que nem eu sabia, so sabia que queria andar para o sentido oposto, seja lá o que ele for. Eu não estava disposto a andar casa por casa a minha vida toda, eu queria uma familia que se revelasse. Apenas isso.
Estava disposto a ter uma moldura por todas as famílias, não tinha espaço na secretária para todas as que poderia ter. Palavras não podiam descrever o gosto de esponja que tinha na boca depois de cada grito abafado por almofadas na noite, eu reservei um hotel para isso e para chamar de habitação por uns tempos, até ao pouco mais que um hordenado mínimo durar para um pacote de leite, que hoje em dia não é muito caro. Foram muitas coisas que aconteceram nestes ultimos tempo... vamos simplificar-
— Fim —